11 de out de 2009

Carregadores de água

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Aos poucos as cidades se vão tornando impessoais: personagens peculiares que faziam parte do cotidiano vão desaparecendo nas brumas da modernidade.

Na Tucuruí da minha infância não havia água encanada. Éramos engenhosos, todavia: tínhamos dentro de casa o nosso próprio sistema de água encanada, para a cozinha e o banho.

Isto consistia em dois camburões, de duzentos litros cada, que chegavam a Tucuruí com gasolina, para abastecimento dos barcos.

À exemplo das caixas d’águas de hoje, fazia-se um elevado de madeira e lá em cima era colocado o camburão.

A partir do camburão era soldado o cano que terminava em uma torneira no lavatório da cozinha ou no banheiro, conforme o caso.

Para alcançar o camburão era feita uma escada. Esta escada era escalada todos os dias por elementos que ganhavam a vida enchendo os camburões com as águas do Igarapé Santos, que àquela época era limpa e cristalina.

Estes senhores usavam para carregar a água duas latas de vinte litros cada, penduradas por uma corda, uma a cada lado de uma vara a que chamávamos de cambão.

Enchiam as latas no igarapé, colocavam o cambão no ombro, com as duas mãos seguravam as duas latas e rumavam ao tambor que os esperava de boca aberta, sedento pelo igarapé que se transportava à eles: eram os carregadores de água.

Havia muitos deles em Tucuruí, não lembro o nome de todos. Alguns estão vivos ainda no momento em que anoto estas saudades.

Três deles, no entanto, foram aqueles tipos peculiares que toda cidade de interior outrora se orgulhava de possuir.

O gilete azul

Não mais que um metro e meio. Gordinho e pachorrento. Uma cabeça quadrada de onde se sobressaía um enorme e esbugalhado nariz cheio de buracos de espinhas. Olhos miúdos. Orelhas enormes. Se ele tinha pescoço este vivia escondido entre a cabeça e o tronco, pois nunca o vi. Barrigudo. No lugar do umbigo uma protuberância de bom tamanho. Pés sempre descalços.

Ponha isto dentro de uma calça de brim azul que só ia até o meio da canela. Vista-o com uma camisa também de brim azul que a custo só fechava o botão do meio e se esgarçava no resto do tronco, por conta da barriga volumosa.

Agora, imagine uma pele vermelha, característica daquelas pessoas que se embriagam desde o ventre materno e que jamais souberam na vida o que é estar sem álcool no sangue.

Coloque um sorriso discreto e constante no rosto deste sóbrio ébrio: este era o Gilete Azul.

Assim era chamado porque vivia a repetir a propaganda que ouvia no rádio, da lâmina de barbear Gillete: era o seu cumprimento aos que passavam.

Devia achar aquele jingle uma maravilha musical. Queria que todos ouvissem e por isto à todos cantava.

Quando vinha com o cambão ao ombro, latas cheias, em um trote ébrio pelas ruas, em busca do tambor contratado e alguém se colocava a sua frente, a sua buzina era um grito rouco:

- Gilete Azul!

As crianças são de uma maldade divina, pois que protegida pela inocência: a nossa brincadeira preferida em relação ao gilete era atazanar-lhe a existência de carregador de água, dificultando-lhe o equilíbrio.

Quando víamos o gilete azul a caminhar em trote regular com o cambão ao ombro, corríamos e dávamos um empurrão em uma das latas.

Gargalhávamos ao vê-lo sair da direção em que caminhava e ser obrigado, para não ir ao chão, a acompanhar a trajetória da lata em passos trôpegos.

Bom mesmo era quando ele, irado, abaixava as latas ao chão e saía ao nosso encalço a xingar impropérios.

Tudo era planejado: enquanto ele corria atrás de uns, outros, já colocados previamente em ponto estratégico, apressavam-se em entornar as latas abandonadas.

Quando o coitado voltava, as latas estavam vazias e ele tinha que ir enchê-las de novo, ladeira abaixo.

O suplício do gilete azul era a nossa glória. Éramos Zeus e ele o nosso Sísifo. Impingíamos ao gilete a sina de rolar a pedra ladeira acima, para de lá ela despencar ladeira abaixo, eternamente: como diria Lupicínio, a nossa maldade era uma arte.

Sinto hoje um misto de remorso e de saudade ao lembrar o sacrifício que causávamos àquela doce alma ébria de carregador de água.

O Puro Leite

Outro destes carregadores era o puro leite. Assim chamado porque, como o gilete azul, gostava de beber cachaça. A diferença era que o puro leite tinha dias de sobriedade.

Quando ele tirava para beber eram dois ou três dias porre e quando alguém lhe chegava perto ele logo avisava:

- Hoje estou o puro leite.

A expressão se devia ao fato de ser popular à época, a aguardente chamada Leite de Onça e o pessoal chegava aos botecos e pedia uma dose de leite.

O uniforme do puro leite carregar água eram calça e camisa confeccionados a partir de sacas de açúcar.

O açúcar vinha em sacas de pano branco de sessenta quilos. Os armazéns depositavam o pó em caixas de madeira ao lado do balcão, e pesavam-no à medida que os fregueses iam comprando, em quilos.

As sacas vazias eram lavadas e vendidas para fins diversos: de pano para limpar o assoalho das casas, a toalhas de banho e até, abertas e emendadas umas às outras, em lençóis para dormir.

O único que eu lembro ter transformado as sacas de açúcar em roupa foi o puro leite. Ele passava a semana toda naquele uniforme, sóbrio ou ébrio, com ou sem o cambão no ombro.

Aos domingos era diferente: via-se a caminhar para a missa matinal um homem moreno pálido, andar arqueado para a frente, talvez devido ao peso do cambão durante a semana.

No rosto retangular e fino um tímido bigode de não mais que uma dezena de fios, cabelos curtos e lambuzados de brilhantina, uma calça de brim branca, engomada, e uma camisa, também engomada, de brim azul e sapatos Vulcabrás já bastante carcomidos pelo tempo.

Ali ia o puro leite, impecável, todo engomado, para a missa.

Ele cantava alto e compenetrado todos os hinos. Sua voz grossa era ouvida dos fundos da igreja, onde ficavam, de pé, os senhores da cidade.

Daí surgiu a expressão, hoje morta em Tucuruí, de quando queríamos dizer que alguém estava bem vestido e havia se comportado bem em algum local, simplesmente falávamos:

- Ele estava tal qual o puro leite na missa!

Não mexíamos com o puro leite. Ele tinha esta sorte de poucas personagens peculiares da cidade. As crianças o deixavam em paz.

O cara de onça

Por fim, para completar o trio, havia aquele de quem tínhamos medo como o diabo da cruz.

Em Tucuruí os pais não ameaçavam os filhos danados com o bicho-papão, a cuca, o curupira ou mitos elementares que os valesse, pois tinham, em carne e osso, a figura que fazia qualquer menino aquietar-se: o cara de onça.

Alto. Aos nossos olhos de crianças, altíssimo. Tronco forte em cima de pernas grossas e compridas. Os pés enormes e largos dificultavam achar o sapato de tamanho certo.

Ao rosto ele devia o apelido: tinha, de fato, toda a aparência do rosto de uma onça. Até os olhos lembravam os do felino feroz das matas amazônicas.

As onças também lhe emprestaram a personalidade: era calado e introspectivo. Quando alguém o via algo expansivo era sinal que umas doses de pinga lhe estavam nas veias.

Assim o cara de onça fazia a sua jornada diária a derramar o Igarapé Santos nos camburões das famílias tucuruienses.

Quando o víamos ao longe, corríamos em sentido inverso e amoitávamo-nos à espera. Da nossa tocaia de covardia, observávamos atentos o objeto do nosso temor, até que ele sumia de vista. Saíamos então da toca e voltávamos às diabruras.

Eu adorava assustar a meninada usando o cara de onça como bravata.

As vezes estávamos reunidos em roda, a planejar algo, que coisa boa não era. Quando eu notava que todos estavam absortos a imaginarem-se já em plena atividade do que se planejava, eu dava um pulo de retirada, emprestava à face o pavor, e soltava um grito apavorado de alerta antes de sair correndo:

- Olha o cara de onça!

Era menino correndo para todos os lados, sem rumo certo, cada um imaginando que estava em seu calcanhar, o dito cujo.

Eu observava, aos risos, a reação de cada um e o modo como fugiam, para depois contar aos outros e fazer pilhéria com o fato.

Eu adorava fazer pouco dos outros. Esta era a expressão que usávamos para a palavra caçoar: fazer pouco.

O General MacArthur, em seu memorável discurso de despedida das armas, foi um dos poucos personagens da história moderna norte-americana que ao final do seu discurso, teve todo o Congresso Nacional Americano, de pé, a aplaudi-lo fervorosamente.

Ao iniciar o fechamento de sua fala, o velho general disse que os bons soldados não morrem, apenas desaparecem.

O Gilete azul e o Puro leite desapareceram. Fazem parte da galeria de personagens que, como os bons soldados, não morrem, simplesmente desaparecem.

Ninguém sabe e ninguém viu que fins levaram aqueles dois. Como diria o Chico Buarque, sumiram no mundo sem avisar.

Por mais que eu tente, nos meus exercícios arqueológicos mentais, eu não consigo escavar e descobrir qual foi a última vez que empurrei a lata do Gilete ou ouvi a voz grossa do puro leite a entoar o Hosana na Igreja São José.

Eu acabara de descer do palanque, após fechar o comício que fazíamos pela campanha de Jarbas Passarinho ao governo do Pará, em 1994. Cumprimentava a todos que me abordavam, como é praxe nestas ocasiões.

Uma mão grande e grossa apertou a minha. Era um aperto diferente dos demais. Senti aquilo imediatamente. O toque sintonizou e despertou em mim algo totalmente diferenciado.

Olhei: um senhor de idade avançada. Alto. Corpo curvado para a frente, a denunciar o peso dos anos. Cabelos ralos e brancos colados à cabeça. Um sorriso tímido e sereno em um rosto que lembrava os traços de uma onça.

Ele não mais me parecia àquela figura ameaçadora de outrora.

- O senhor se lembra de mim? Perguntou ele em voz acanhada.
- Claro que lembro!

Embaracei-me por instantes: não queria chamá-lo de cara de onça e jamais soube como era o seu nome.

- Onde o senhor está morando?

- Eu ainda moro no alto do bode, doutor. Hoje o pessoal chama de Colina, mas é o mesmo alto do bode daquele tempo. Eu lhe vi “pichichito”, carreguei água para o seu pai, hoje o senhor é o nosso prefeito.

Eu procurava o que falar mas nada me vinha à mente. Eu só pensava e via a molecada correndo a se esconder e o cara de onça a passar com o cambão.

Senti que os olhos umedeciam e disfarcei:

- O Senhor está bem?
- Levando, doutor. Tô velho...

Outras mãos tomaram as minhas das mãos do cara de onça e de repente eu estava cercado por várias pessoas naquele frenesi peculiar das campanhas políticas.

O cara de onça sumira sem eu ver que rumo tomara. Até hoje não fui checar para ver se ele ainda mora mesmo no Alto do bode.

Fiquei ensimesmado. Haviam-me dito, há algum tempo, quando perguntei por ele, que ele já havia morrido.

As pessoas, às vezes, quando não sabem informar de alguém há tempos não visto, têm esta coisa de dizer que já morreram…

Mas, vez em quando, eu cismo que era o fantasma do cara de onça aquela noite.

2 comentários:

  1. Outros carregadores de agua em Tucurui nos anos 60 eram Benedito Castro, Tomaz Colares, Passarinho e Carlito.As padarias eram do Seu Morais, do seu Joao Pedro, do Seu Manoel Pontes e do seu Hilario Sousa.Os servicos sonoros eram ESTRELA DO SUL, A VOZ DE CRISTAL do Manoel Seco (Tambem do Bar Eldorado e do Cinema), que depois mudou para Stereo Sherazarde. Tinha tambem na beira do rio A VOZ DO ROSARIO, perto do antigo mercado, do cartorio e da casa do seu Mimico. O dono era o seu Mito que tambem era tabeliao. Tinha na 24 de outubro o servico de som da Suburbana Bar.La hoje mora o Seu Ramos, pai do finado Vital, do Olival, da Celina e da Liduina.
    O delegado era seu Edesio. Tinham os soldados Barriga e Valterlou e o sargento Goes.Tinha o Coletor Antonio Pereira. Tinha o grande locutor das ocasioes especiais Raimundo Maia Galvao Filho.

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