15 de out de 2009

A Chica Pronta

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O nome dela era Francisca Rocha, viúva do Seu Antenor, uma das vítimas do trem da Estrada de Ferro Tocantins, que cruzava longitudinalmente toda a cidade de Tucuruí, lá pelos idos de 1967.

Ela não era conhecida pelo nome de pia: era chamada em toda a cidade, desde o Mangal até a Matinha, pela alcunha de Chica Pronta.

Para nós, caboclos baixinhos do Tocantins, ela era alta e esguia. Para os padrões da época, em que um certo recheio nas coxas e ancas era valorizado pelos homens, poder-se-ia dizer que a chica pronta era magra.

Era negra, mas mantinha o cabelo liso. Rosto fino e nariz adunco. Olhos embaixo de sobrancelhas grossas, queixo e lábios finos. Pescoço comprido.

Quando vi aquelas mulheres de uma tribo tailandesa, conhecidas como “mulheres girafas”, por portarem, desde crianças, argolas de bronze no pescoço para alongá-lo, a primeira coisa que me veio à mente foi a figura peculiar da Chica Pronta.

O porquê do apelido era que a Francisca Rocha jamais foi vista sem estar absolutamente arrumada: estar arrumada significava estar impecavelmente vestida, penteada e maquiada.

Fazia gosto ver a Chica Pronta. Ela mesma cozia os seus vestidos e eles  lhe sentavam ao corpo como aquelas roupas do Valentino vestem a Gisele Bündchen.

Não pensem que ela usava tecidos finos: o máximo que ela podia cozer era alguma peça de gabardine.

A maioria das suas vestes era de chita das mais variadas cores. Mas, ela trajava seus vestidos e saias de chita como a rainha Elizabeth traja os seus costumes de cambraia de linho puro: naturalidade e altivez.

Os sapatos da Chica Pronta eram de salto médio. Que eu me lembre ela tinha três sapatos de cores diferentes: eu ouvia estes comentários à boca da noite, quando meu pai sentava na calçada de casa para ouvir, com os amigos, a PRC5, Rádio Clube do Pará, degustando café, que ficava em uma garrafa térmica Aladim.

Duas vezes ao dia a Chica Pronta brindava o guarda-roupa à cidade: de manhã, para o mercado, e à tarde para a missa. No intervalo dos desfiles, ela permanecia impecável dentro de casa, em trajes mais despojados, mas, jamais alguém a surpreendeu desarrumada.

A maquiagem era impecável sempre. Pó compacto, baton, lápis e sombras lhe eram presença permanente no rosto: a chica pronta devia dormia maquiada, para o caso de alguma emergência à noite.

Completava-lhe o traje uma sombrinha multicolorida, com um cabo branco rajado de róseo, que ela abria ao sol ou fechava à sombra: a Chica Pronta jamais saia à chuva.

Era um total mistério na cidade a origem das posses que proporcionavam a pose da chica pronta. A sua casa era modesta e, desde que o Seu Antenor partira, ela não mais se juntou a outro homem: vivia sozinha, pois não tiveram filhos.

Eu não lembro qual foi a última vez que eu a vi, altaneira, rumo à missa, mas ainda guardo na mente a figura: um vestido verde claro, de manga, apertado na cintura, com um cinto do mesmo tecido e saia rodada, com rendas brancas na bainha.

Os brincos eram brancos, de ferragem prateada. Uma travessa larga metálica lhe prendia a pastinha negra. Sapatos pretos. Chamou-me atenção as sobrancelhas enormes e negras, que hoje acho que eram pintadas com lápis, e os lábios extremamente vermelhos como as unhas.

Eu caminhei em sua direção e a saudei: “boa tarde, Dona Chica Pronta.”

Levei uma surra à noite, depois da missa: a dita cuja, durante o sermão, reclamou a minha mãe que eu a houvera apelidado na porta da Igreja.

Eu não entendi a causa das bordoadas, afinal, todos a chamavam daquela forma. A partir daquele dia eu nunca mais olhei para a Chica Pronta e só fui me lembrar dela quando vi as mulheres girafas da Tailândia, uns trinta anos depois da surra.

Um comentário:

  1. caro Dr Parsifal..relembro " a personagem" ..em uma daquelas noites
    durante a 'luta" para atender o anseio do povo. O texto,com suas"lembranças' é uma preciosidade,
    Poderia ser Nava ou Sabino da minha
    Mg ...
    Espero o livro.
    Vida longa ao author!!!

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