11 de out de 2009

O circo, os palhaços, as bailarinas

Shot013

Bailarina na Barra - Botero

O circo era um dos acontecimentos mais esperados na Tucuruí da minha infância.

Quando um ia embora era uma tristeza geral para a meninada e já começávamos a conjecturar quando seria o próximo.

A tristeza ia embora na esperança serena de que um novo circo não tardaria: a esperança é sempre o consolo mais ameno da tristeza.

Quando o circo chegava corríamos para o local onde ele seria armado: uma área no centro de Tucuruí, que servia de campo de futebol para as peladas vagabundas de outrora.

Nossa missão ali era gritar o palhaço: todos os moleques da cidade, de oito anos para cima, enfiavam-se atrás do palhaço em uma procissão peculiar de refrões animados.

O palhaço gritava a pergunta e a meninada se transformava em gargantas tonitruantes em falsetes:

- Hoje tem espetáculo?
- Tem, sim senhor!
- Às oito horas da noite?
- É, sim senhor!
- Hoje tem marmelada?
- Tem, sim senhor!
- Hoje tem goiabada?
- Tem, sim senhor!
- E o palhaço o que é?
- Ladrão de mulher!
- E quem não for o que é?
- Ladrão de mulher!

A procissão começava pelas três da tarde e lá pelas seis estávamos de volta ao picadeiro já montado, onde nos era servida uma fatia de goiabada com “quisuco”.

Recebíamos um carimbo na mão para entrar sem pagar. Não tomávamos banho, é claro, ou o bilhete de entrada ia por água abaixo.

Eu vivia apaixonado pelas bailarinas de todos os circos que passavam pela cidade.

O coração das crianças é um universo. Tem lugar para paixões infinitas e fantasias mil. À medida que vão crescendo e a inocência não mais lhes acompanha os passos, o coração diminui, as fantasias se envergonham e se recolhem aos mais inacessíveis escaninhos da mente.

Só a loucura faz as fantasias retornarem à superfície do oceano da alma.

Todo circo que se prezava tinha uma bela bailarina. O conceito de beleza daquela época não era estas modelos esqueléticas e pálidas de hoje em dia: estava mais para as musas gordinhas do Renoir.

As bailarinas entravam no picadeiro faceiras e sorridentes, a balançar o corpo pesado e sem arte, todavia aquilo para nós era um êxtase sublime: a sapatilha dourada, a malha fina cheia de lantejoulas brilhantes e miçangas multicoloridas, o rosto e os cabelos borrifados de purpurina.

Imaginem o que era isto para os senhores e rapazes de uma cidade puritana do interior, onde as mocinhas não ousavam o mais discreto batom e as saias eram religiosamente abaixo do joelho.

Para a meninada então, aquilo não era uma mulher, era uma visão deslumbrante que rodopiava no éter.

Como eu não podia me apaixonar perdidamente?

Eu inventava aos colegas de infância as mais mirabolantes histórias que ocorriam entre eu e as bailarinas dos circos. Eles, entre a incredulidade das circunstâncias e a confiança da inocência, acabavam optando pela segunda hipótese.

Afinal, era conveniente acreditar: acabavam pegando carona na minha fértil imaginação e eram felizes por contágio.

Quando o circo ia embora meu coração se partia. Lá se ia a minha amada bailarina. A tristeza tomava conta do meu peito por um ou dois dias.

Passado este tempo, era como se passados fossem vários anos. A imaginação das crianças tem uma retrospectiva consciente curta demais. O mundo da inocência é sempre o presente.

Àquela época, eram comuns as histórias de meninos que os circos roubavam, por isto os pais prendiam a molecada em casa quando o circo começava a se desmontar.

Hoje, concluo que o circo não roubava menino algum. Eles simplesmente iam com ele, apaixonados pelas bailarinas.

Elas eram as flautistas de Hamelin das pequenas cidades do interior.

Sempre resisti à voluptuosa vontade de seguir a flauta. Afinal, correr mundo não é uma delícia?

Resolvi correr o mundo depois de grande. Talvez não tenha o mesmo encanto que teria se eu fizesse como o Hucleberry Finn. Jamais saberei.

O consolo, ao fim do sonho passado, quando desperto à realidade presente, é que o meu mundo era o vale do Tocantins.

E eu o corri como criança alguma jamais o fará de novo. O chão, hoje em dia, é coberto de asfalto. O circo, o palhaço e as bailarinas são nada mais que doces reminiscências de um passado que cada vez mais se perde nas esquinas escuras da vida apressada.

Daria tudo para saber se ainda vive, e onde, e como, a última das bailarinas que rodopiou nos picadeiros da minha infância.

Mas eu nem me lembro qual foi. Tudo que tenho em mente é uma figura a bailar no centro do picadeiro de um circo.

2 comentários:

  1. DR. PARSIFAL,

    QUEM VIVEU EM TUCURUI DE 1969 A 1974, SABE QUE, EM SE TRATANDO DE MÚSICA, A BANDA AMERICANA CREEDENCE C. REVIVAL, FAZIA MUITO SUCESSO EM NOSSA CIDADE.NAS FESTAS DO TUCURUI SPORT CLUBE, NO FERROVIARIO E NO PARAISO, AS APARELHAGENS DA EPOCA TOCAVAM OS SUCESSOS DA BANDA COMO GREEN RIVER, LOOK OUT MY BACK DOOR, PROUD MARY, BAD MOON RISING, HAVE YOU EVER SEE THE RAIN E OUTRAS. NAQUELES TEMPOS, EXISTIA TAMBÉM O BAR "SALÃO AZUL", NA LAURO SODRÉ, PERTO DA PONTE DA PASSAGEM S. JORGE, POINT DOS ESTUDANTES QUE VINHAM DE FERIAS DE BELEM, POR CAUSA DOS BALIES ANIMADOS QUE ALI ERAM REALIZADOS. O CREEDENCE PRODUZIA UM ROCK COM ESTILO COUNTRY MUSIC , E TINHA COMO BAND LEADER JOHN FOGERTY, COM SEU TIMBRE DE VOZ INCONFUNDIVEL.DEPOIS QUE O GRUPO ACABOU, EM 1973 JOHN FOGERTY ENTROU EM ESTUDIO E PRODUZIU O LENDÁRIO LP "THE BLUE RIDGERS RANGERS" EM QUE TOCOU TODOS OS INSTRUMENTOS.ESSE DISCO FEZ MUTO SUCESSO EM TUCURUI, COM MUSICAS COMO JAMBALAYA E HEARTS OF STONE, QUE TOCAVAM MUITO NO SALÃO AZUL.ALIAS, O CREEDENCE FEZ SUCESSO NÃO SÓ EM TUCURUI, MAS NO RESTO DO MUNDO. TENHO EM CASA OS ANTIGOS LP.S DA BANDA, QUE ESCUTO ATÉ HOJE EM MEU TOCA-DISCOS, QUE, DIGA-SE DE PASSAGEM, ESTÁ EM BOM ESTADO. OUVIR CREEDENCE, É VIAJAR NO TEMPO.

    ResponderExcluir
  2. Eu dancei no Salão Azul ao som do Credence. Também tenho as músicas e, vez em quando, as ouço no carro.
    É meu caro, tem aquela música que diz que "a saudade mata gente", mas, ela também é o que nos faz viver...

    ResponderExcluir