11 de out de 2009

Quando ainda havia coretos

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Coreto da Praça Carlos Gomes de Campinas - Washington Maguetas

No dia do Círio, ainda sem Sol, saíamos rumo à Catedral da Sé, erigida sob a ordem de Dom João V, uma das preciosidades arquitetônicas do Pará.

A beleza arquitetônica do interior da Catedral me encantava mais que a missa. Raramente eu olhava para a figura solene do arcebispo a anteceder a saída da Santa: meus olhos eram para as pinturas, imagens e formas do templo.

Eu achava que aquilo tudo tinha aparecido ali por obra de Nossa Senhora de Nazaré: não eram mãos humanas as responsáveis pelos ornamentos da Sé.

Certa feita, febre alta, eu olhei para as telhas sem forro, como eram as casas do interior, e imaginei que via o teto da Sé: de repente, Nossa Senhora de Nazaré estava lá, entre as telhas, a me acenar um terno sorriso.

Chamei minha mãe e disse que estava vendo a Santa. Foi um Deus nos acuda: imaginou-se que eu estava em delírio de morte.

Como não morri, concluiu-se que a Santa, ao invés de ter vindo me buscar, na verdade me veio curar.

Minha mãe, devota juramentada do Sagrado Coração de Jesus, prometeu à Virgem que, no próximo Círio, iríamos à Belém e eu deveria, com ela, acompanhar a procissão vestido de anjo. Foi assim que, com manto de cetim e asas de arame com rendas, eu me vi na Sé.

Eu só não entendia o porquê de os anjos que eu via no teto estarem nus: ainda bem, pensava eu, que eu não tinha que estar despido como eles.

A hora de sair da Catedral era um desafio: todos queriam se colocar o mais perto possível da Berlinda e, constritos, aos cantos da Virgem Mãe amorosa, começava a procissão.

A primeira parada, para um lanche, era no Hotel Avenida, na Presidente Vargas, onde eu, já com as asas meio quebradas, sorvia um delicioso guarasuco com misto quente.

Meu pai, vestido em um conjunto de gabardine branco engomado, e calçado em um Vulcabras preto lustrado com óleo de peroba, me emprestava o cangote: eu me imaginava a voar sobre a multidão, a procurar a Berlinda que já não se via no meio da turba.

Vez em quando tangíamos a corda, que eu não entendia o que significava. Eu só sabia que era algo de muita importância, o que era ratificado na minha imaginação quando eu apreciava aquele monte de gente, colados uns nos outros, a fazer um esforço tremendo para arrastar algo que eu não conseguia imaginar o que fosse.

Entre as minhas explicações para aquilo, que eu não ousava dividir com ninguém, estavam duas coisas mais frequentes: na ponta da corda estava o dragão de São Jorge, que queria devorar a Santa, ou o próprio demônio, que eu imaginava tal qual uma figura horrenda que vira certa feita à noite, a me olhar por sobre o mosquiteiro.

Como ambos eram poderosos, precisava de muita gente para conte-los na fúria contra a Nossa Senhora.

À medida que a multidão se aproximava do Largo de Nazaré, em frente à Basílica, a coisa ia ficando densa: os passos diminuíam e a procissão se tornava pachorrenta.

A entrada da Santa no Largo era a apoteose que culminava com a missa na Basílica de Nazaré, outra joia arquitetônica de Belém, construída no início do século passado: uma reprodução da Igreja de São Paulo, em Roma.

Entrar na Basílica para receber as bênçãos da Santa era uma missão de destemor e fé. O templo desafiava as leis da física: recebia mais gente do que poderia conter.

Mas não se podia encerrar o Círio sem ter estado frente a frente com Ela. Principalmente nós, caboclos do baixo Tocantins, que só vínhamos à capital para o Círio.

Depois de tudo a volta, cansados, mas regozijados, para casa. Era a hora do almoço: um banquete regional, feito com as iguarias que trouxéramos em paneiros e caçuás, nos porões e tetos dos barcos que nos traziam à Belém.   

Eu digo que não mais acompanho Círio por opção de não mais me submeter aos transtornos da caminhada. O Largo de Nazaré também foi desvirtuado: eu preferia os coretos bucólicos de antanho.

Mas na verdade, eu acho que não o faço para que a saudade daqueles tempos seja mantida intacta.

Não que eu ache que o tempo não deva passar e que as coisas não devam se transformar com ele, todavia, tenho a mania de, em certas coisas, fazer o tempo parar e aprisioná-lo nos escaninhos das minhas lembranças.

Vez em quando, na quietude do estio da Sé, entro ali e puxo da prateleira do meu passado o tempo que lá depositei: a saudade do coração é o mais doce suplício da alma.

Um comentário:

  1. Manoel VALENTE Neto14 de outubro de 2012 08:46

    Com esse pequeno fragmento de sua nova obra literária em construção (livro de memórias),voce acaba brindando nossas memórias com um filmete sobre o Círio de Nazaré, esse fenômeno de religiosidade e fé do povo paraense, ao nosso tempo de criança. Os sessentões de hoje como eu, nos idos dos anos 50/60, tinhamos na ansiedade de criança pelo segundo domingo de outubro, a certeza de roupa nova, sapatos novos e uma fotografia em frente ao gradil da Basília, para marcar cada Círio.E era assim mesmo. Papai,mamãe e os filhos, todos vestidos condignamente, caminhando em procissão com a Virgem pelas sombras refrescantes das nossas mangueiras seculares pelo mesmo percurso percorrido ainda pela nossa belíssima procissão. Pena que os tempos mudaram e muita coisa tb mudou, inclusive esse clima lúdico que as crianças de ontem (idosos de hoje) tinham nessa festa Mariana.
    Mais uma vez voce nos brinda com tão belo escrito. Abraços e um Feliz Círio meu caro Parsifal e Deus te proteja.

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