11 de out de 2009

Raízes e asas

Shot007

As noites na nossa pequena fazenda, às margens do Rio Tocantins, começavam tépidas e aos poucos esfriavam.

A proximidade do rio e a mata virgem ao redor tornavam o clima úmido, o que dava à terra a constância do cio. Um observador mais atento poderia sentir a energia da vida a acontecer naquelas matas e todos os dias revigorar-se com ela.

A vida vadia de então, nos tempos do estio escolar, dividia-se entre perambular pelo mato e se banhar no rio. O Tocantins era um mar de água doce que escorregava lânguido pelos vales da planície que vez por outra se enrugava em pequenas serras.

Aos meus olhos de criança aqueles morros eram verdadeiras montanhas inexpugnáveis. Quando passávamos por elas, mirando-as do rio, perguntava ao meu pai se alguém já tinha estado lá em cima.

Ele, à cana do leme do São Pedro, um pequeno barco motorizado, no estilo marabaense, sorria ensimesmado.

Um dia, quando passávamos por uma das serras, ele me deve ter visto os olhos a mirar o cume: encostou o barco, amarrou-o a uma pataqueira onde o Tocantins fazia uma curva suave para mostrar outra paisagem e, estendendo-me a mão convidou:

- Vamos, vou te levar lá em cima.

Após o que foi para mim uma árdua e perigosíssima escalada, chegamos ao cume. Acho que Edmund Hillary e Tenzing Norgay, ao alcançarem o cume do Chomolungma, verdadeiro nome do Everest, pico mais alto do mundo, sentiram o mesmo que eu: o meu mundo eram os vales do Tocantins e eu vi o mundo inteiro lá de cima.

Ainda sinto hoje a sensação de leveza quando lembro. Deu vontade de pular e sobrevoar o rio.

Raramente passo por ali hoje em dia. A última vez que passei por lá engoli aquele seco que é a lágrima contida e ensimesmei: - Meus Deus, como diminuiu aquela montanha! Eu não posso ter crescido tanto assim...

Anos mais tarde, lendo Hodding Carter, uma sentença do livro, daquelas que a gente sublinha, chamou-me a atenção. “Só dois legados duradouros podemos aspirar a deixar para nossos filhos: em primeiro lugar raízes, em segundo lugar asas”.

Quando meu pai me levou montanha acima, fez com que eu visse, do alto, onde estavam as minhas raízes: por mais que eu me tornasse mais tarde um cidadão do mundo, minhas ligações com os vales do Tocantins seriam perenes e ali seria a minha fonte original de energia de vida. O meu eterno repositório de inolvidáveis saudades.

Quis, também, meu pai, tirar-me a dúvida e dizer que um homem poderia estar lá em cima. Este homem poderia ser eu: colocava-me asas.

Eu já me julgava um adulto quando li Carter. Meu pai ainda vivia. Isto me ajudou a olhá-lo com mais carinho.

É gostoso sentirmos afeto por pessoas queridas. Em certo trecho de um discurso de Thomas Jefferson a uma turma de jovens formandos, revelou-lhes ele que os momentos mais felizes que seu coração conhecia “eram aqueles em que derramava seu afeto sobre umas quantas pessoas queridas.”.

Há muito meu pai partiu. Disse Gibran, em O Profeta, que a única distância que não podemos romper é a do esquecimento. Continua perto portanto. Raízes e asas foram, dentre muitas outras coisas, partes preciosas da herança maior que ele nos deixou.

3 comentários:

  1. Singelo, tocante... lindo! Fez-me ver as lições de meu pai através do seu olhar de filho.

    ResponderExcluir
  2. Belo do Belo!

    Uma crônica/Prosa que beija a alma
    e deixa o dia mais vivo.

    Mesmo atrasado,

    é que eu passei parte do dia visitando o túmulo sagrado de Papai,

    "Feliz Dia do Pais".

    Pode crer, pelo exemplo do texto, não tenho dúvida quanto ao tipo de Pai você é.

    Grande abraço, Mestre!

    ResponderExcluir
  3. Olá Benny,

    Muito obrigado e um abraço.

    ResponderExcluir