11 de out de 2009

Geladeiras à querosene

gela

A Tucuruí da minha infância não tinha energia elétrica. Os poucos "abastados" que possuíam geladeiras tinham que abastecê-la com querosene, que era comprado em latas de vinte litros.

Possuíamos uma Gelomatic branca que devia pesar uma tonelada aos meus olhos de criança. A porta tinha uma tranca de aço que fazia um barulho característico ao destravar.

A operação abastecimento da geladeira era um dos meus rituais preferidos.

Eu vivia a olhar o nível de querosene no tanque, que ficava na parte inferior da geladeira, e saia a gritar papais afetados, avisando que estava na hora de abastecer.

As vezes meu pai não estava em casa e eu saía Tucuruí afora a procurá-lo: urgia que se fizesse o abastecimento ou o mundo correria o sério risco de acabar.

Para o abastecimento era necessário, antes de tudo, desligar a geladeira. Isto consistia em ir diminuindo a abertura do orifício que propiciava a chama, através de um botão cujo mecanismo fechava ou abria a fenda.

Eu ficava maravilhado com a troca de cor que a chama ia sofrendo. Ela era de um azul marinho claro em operação normal. Papai me permitia ir movendo o botão no sentido anti-horário e o azul ia ficando marinho escuro. Parava-se aí por cerca de um minuto.

Mais um movimento do botão no mesmo sentido e a cor, de azul marinho escuro que era, transformava-se em um quê qualquer de verde claro.

Ordem de parar mais um minuto.

Eu não soltava o botão e acho que também não respirava: aquilo para mim era a coisa mais importante em toda a face da terra. Imaginava eu, talvez, que qualquer passo em falso e a cidade iria pelos ares.

Ordem para recomeçar a operação.

Mais um movimento e a chama se transformava em amarelo claro que era o último suspiro do fogo, o prelúdio de sua morte — nesta altura eu já afrouxava um pouco a pressão dos dentes sobre a minha língua: sempre que eu estava fazendo algo de grande importância eu colocava a língua entre os dentes inferiores e superiores e apertava. Se me impedissem de fazer isto eu era um homem morto.

Finalmente o último movimento e a chama se apagava.

Destampava-se o tanque e eu segurava o funil enquanto papai virava a lata de querosene. Cheio o tanque, deslizava-se o mesmo de volta ao seu lugar e encaixada a parte superior do orifício que soltava a chama, na parte inferior da serpentina que circulava a geladeira, recomeçava-se a operação cores da chama em ordem inversa, até alcançar o azul marinho claro e estava terminada, com pleno sucesso, a operação.

Hoje, as vezes, pego-me sorrindo ensimesmado quando estas lembranças, não mais que de repente, afloram-me. Papai fazia aquele ritual todo somente para me encher de fantasias e aquele era o seu modo de me ensinar noções de responsabilidade e atenção nas coisas que eu deveria fazer na vida.

Poder-se-ia simplesmente apagar a chama de uma vez e, ao acendê-la de novo, mover o botão de uma só vez para o azul marinho claro. A cor da chama nada mais é do que a quantidade de calor que ela contém e aquela graduação somente influiria em a geladeira refrigerar a mais ou a menos.

Quando as minhas retrospectivas foram ficando mais críticas e eu fui descobrindo a importância destes rituais para a minha formação, meu pai já houvera partido: meu coração se apertava entre sorrisos ternos e lágrimas contidas.

Torna-se, algumas vezes, a saudade, a substância de uma angústia quase desesperada, quando concluímos que a grandeza de pequenos atos não comporta mais sequer um terno afago de reconhecimento. A resignação, todavia, corre em socorro da serenidade.

Bem aventurados aqueles que deixam saudades ternas: nelas jamais partem e por elas sempre estão perto. Como falou Gibran, a única distância verdadeira é o esquecimento. Eu jamais poderia esquecer um passado tão rico em reminiscências. Sua memória, foi a herança maior que meu pai me deixou.

Hoje perderam-se os rituais. A realidade é muito presente e forte para permitir que eles existam com o significado que deveriam ter. Neles não há mais as fantasias e os sonhos, e a ausência destes dois elementos no coração dos homens leva à descrença, e esta conduz à insensibilidade.

Os rituais que ainda sobreviveram, nada mais são que atos mecanicamente repetidos. Puros gestos físicos. Nada mais existe na alma humana e a alma, como o espírito, precisa de fantasias para viver. O homem cada vez mais perde a capacidade de sonhar. Isto torna a realidade mais insuportável.

Talvez, quem sabe, se consiga recuperar isto com o tempo. Quem sabe comece tudo de novo, se um dia as nossas geladeiras voltarem a ser movidas a querosene.

6 comentários:

  1. lindo, sem palavras voce foi e é feliz.

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  2. DR. PARSIFAL,

    O ATUAL PREFEITO DE TUCURUI FALOU HOJE A UMA EMISSORA LOCAL QUE MANDARÁ FAZER UMA REFORMA TOTAL NA PRAÇA DA IGREJA DE S.JOSÉ.ANTES TARDE DO QUE NUNCA, POIS O TRADICIONAL LOGRADOURO HÁ MUITO PEDIA UMA RESTAURAÇÃO. TOMARA QUE A REFORMA NÃO FIQUE SÓ NO DISCURSO.FALAR EM DISCURSO, LEMBRO-ME QUE EM 1964 JARBAS PASSARINHO LÁ DISCURSOU, DE CIMA DE UM PALANQUE ARMADO DEBAIXO DA MANGUEIRA (QUE NÃO EXISTE MAIS). TAMBÉM NA PRAÇA ERAM ARMADOS OS CIRCOS QUE CHEGAVAM NA CIDADE, COMO O "ROCKGIN CIRCUS" QUE POR LÁ PASSOU EM 1965. FRAGMENTOS DE UMA EPOCA QUE, HOJE, SÓ EXISTE NA LEMBRANÇA E NA SAUDADE.

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  3. Olá meu caro,

    Pelo seu comentário você deve ser, como eu, do tempo das geladeiras a querosene.
    Eu furei muito a lona dos circos para entrar de graça...
    A Tucuruí da nossa época, por mais reformas que se façam, jamais será revivida a não ser nas nossas saudades.

    Um abraço.

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  4. DR PARSIFAL,

    EXATO.SOU UM TUCURUINSE NATO,NASCI NO ANTIGO HOSPITAL DA E F TOCANTINS, NO DISTANTE ANO 1955.HOJE PASSEI PELA PRAÇA E CONSTATEI QUE ELA ESTÁ NUM ESTADO LASTIMAVEL. CANTEIROS MAL CUIDADOS, BANCOS SUJOS E QUEBRADOS, ALÉM DE MUITO LIXO.É ATÉ PARADOXAL O ATUAL PREFEITO DIZER QUE TUCURUI ESTÁ UM CANTEIRO DE OBRAS E, NA PARTE ANTIGA DA CIDADE, NÃO TER NENHUMA OBRA DE REVITALIZAÇÃO. JUSTO DESTA PARTE DA CIDADE, TÃO CARA A NÓS QUE AQUI NASCEMOS. FAÇAMOS VOTOS QUE ELE, PELO MENOS, PROCEDA A REFORMA DA NOSSA TRADICIONAL PRAÇA O MAIS RAPIDO POSSIVEL.AFINAL, ELE TAMBÉM NASCE EM TUCURUI E MOROU LÁ PERTO DA PRAÇA.PORTANTO, NADA MAIS JUSTO QUE A REFORMA EM CARATER EMERGENCIAL.

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  5. que legal relembrei Tucuruí, do tempo da boite do zezé, da concorrida zona de meretrizes, escorre água, do hotel do remista pelado, da lauro sodré que atolava no inverno, dos barcos que atracavam vindos de Belem carregado de mantimentos e passageiros, do único posto de combustivel barrerinhas e lógico dos namoros na praça anteriormente comentado, ha não poderia esquecer da mininada tocando as vacas de leite do campo de aterrissagem para o pequeno teco-teco pousar e ganharem presentes.
    http://valdemirpedroso.blogspot.com

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