11 de out de 2009

Enchentes da minha infância

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Quem nasceu e se criou nos vales do Tocantins, entre Marabá e Tucuruí, deve ter saudades das enchentes que engoliam as ribanceiras, no inverno tocantino.

O Tocantins  era manso. Os habitantes tinham  como  certas as freqüentes cheias e construíam  suas  casas  em  cima  de longos e esguios acapús e assim podiam  desfrutar  as  águas a passear sob suas  moradas.

A cidade se modificava: a maioria dos habitantes da  área que enchia tinha a  sua canoa.

Na enchente as ruas viravam rios e nós remávamos entre os mururés que estacionavam no remanso.

Para  a criançada era a  época mais esperada do ano. Sabíamos que a enchente começava, pelos comentários recebidos de  Marabá  ou cidades acima.

Sabia-se até o intervalo  de  tempo  que uma enchente passava para chegar de Marabá à Tucuruí. Coisas  do  empirismo  popular  mas   que acabava tendo alguma praticidade.

Enquanto os adultos rezavam para não haver enchentes, as crianças e os políticos rezavam para ela ser bem grande.

A meninada ganhava um rio em cada janela da casa e os políticos ganhavam verba para comprar cestas básicas para distribuir entre os seus correligionários: quem era da oposição não tinha direito à benesse.

As águas  da  cheia  não eram sujas  como  hoje. Mantinham-se  limpas  como  era  o  rio  no tempo de estio.

Tucuruí era uma família de não mais que três mil habitantes. Todos  se conheciam.

À  noite, após as canoas voltarem conduzindo seus donos do dia de trabalho, era a hora  das visitas e das conversas à luz das lamparinas.

Eram  noites  frias,  sem   lua  muitas vezes. Porém, nos plenilúnios, tínhamos o  privilégio de poucos mortais: ter à porta uma  belíssima lua cheia a refletir-se nas águas mansas e polpudas do Tocantins.

Férias de fim de ano, para os moleques do Tocantins, era sinônimo de água grande.

O Tocantins tornava-se o nosso brinquedo favorito. Era da rede para a água e da água para a rede.

Nosso dedos e pés viviam engelhados, os beiços roxos e as costas marcadas pelas surras que levávamos, com galho seco de tamarindo, por não querer sair da água.

Adorávamos brincar de pira à noite, dentro d’água.

Durante o dia o sol quente penetrava na limpidez do Rio e podíamos ver nossa presa nadando ao fundo. À noite era escuro e não se conseguia enxergar embaixo da superfície. Prendíamos o fôlego e mergulhávamos rumo aos esteios submersos que sustentavam as casas, onde nos segurávamos para não vir à tona até a última gota de oxigênio nos pulmões.

Todos os anos um de nós era alimento das sucuris que desciam com a enxurrada. A pachorrenta esperava no fundo e agarrava sua presa.

Moleque criado em beira de rio não morre afogado: sucuriju come.

Quando um amigo sumia ficávamos amedrontados por dois ou três dias. Passado o susto lá estávamos nós de novo: não há nada com mais coragem que a inocência.

Somos, a molecada do Tocantins de outrora, uns sobreviventes das traquinagens de então. Os perigos do rio, com certeza, não eram maiores que as suas delícias e o fascínio que ele exercia sobre nós.

Hoje passo meses, até anos, sem mergulhar no Rio Tocantins, mas sempre que o vejo não consigo deixar de enxergar um tempo que já se foi e que não mais voltará.

Rememorando aqueles momentos, vejo o espetáculo que era aquele quadro. Mas, como diz um lindo bolero  do  Lulu  Santos, "nada do que foi será  igual ao que a gente  viu  a  um segundo, tudo muda  o  tempo todo  no  mundo".

A última enchente da minha infância quando se foi, levou consigo as canoas, os compadres, as lamparinas e os plenilúnios. Levou também a minha infância e deixou na espuma do banzeiro os traços do homem que hoje sou.

O Tocantins de ontem não mais existe. Agora, nas enchentes, ele rompe, zangado, as adufas da barragem e nervoso não mais acaricia os acapús que sustentavam as nossas palafitas.

Não sei o porquê, talvez por velhice, ou por desgosto, as ribanceiras dos vales da jusante mergulharam, levando consigo as mangueiras e pataqueiras que nos serviam de trampolim.

À montante da barragem, o Tocantins sumiu e surgiu um oceano de água doce que não tem o mesmo encanto dos vales de outrora, sem as cachoeiras que escalávamos para chegar à Marabá e saltávamos para voltar à Tucuruí.

O meu consolo, quando me vem um certo desgosto pela perda de um passado tão rico em reminiscências é tentar aceitar que perdemos a ternura do rio pela chegada do progresso e do desenvolvimento, através da geração de energia elétrica abundante.

Todavia, quando me vem a rabugice, herdada do tio xindó, fico em dúvida se estamos construindo ou destruindo.

Neste particular, vivo uma crise e uma angústia: aquela, por não saber exatamente o saldo desta conta entre passado e progresso; esta por saber que o nosso passado jaz no fundo da sepultura que o progresso nos impôs.

8 comentários:

  1. DR. PARSIFAL,

    O LIVRO DE MEMÓRIAS FICA PRONTO ATÉ O FINAL DO ANO, OU AINDA NÃO TEM PRAZO PARA PUBLICAÇÃO ? TERÁ MUITAS PASSAGENS DA TUCURUI DE ANTIGAMENTE?

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  2. Não tem prazo para publicar, pois não há pressa para escrever. A parte que fala da Tucuruí de antigamente está praticamente pronta e talvez eu a separe em um livro específico.

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  3. ESTÁ CERTO. VAMOS GUARDAR O LIVRO.
    VEJA SE O SR. ME ESCLARECE O SEGUINTE : O QUE FOI O PROJETO COMERCIAL IMPEX QUE TEVE EM JATOBAL OU JACUNDÁ ENTRE AS DECADAS DE 50 E 60? ERAM EMRESÁRIOS AMERICANOS OU ALEMÃES ?ME LEMBRO QUE, QUANDO CRIANÇA, OUVIA O PESSOAL FALAR DA IMPEX. O PROJETO NÃO DEU CERTO ? JÁ TENTEI CONSEGUIR ALGUMA PUBLICAÇÃO RESPEITO, MAS NÃO ENCONTREI NADA.AGRADEÇO SE PUDER ME INFORMAR.

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  4. A Brasil Impex foi uma empresa alemã, que explorava madeira, principalmente mogno e cedro, nos vales do Rio Tocantins.
    Eles transportavam a madeira pelo rio, em balsas formadas pelos próprios troncos, que eram amarrados uns aos outros e em cima faziam os alojamentos.
    A madeira era embarcada para os EUA e Europa no porto de Belém.
    No final dos anos 60 a Brasil Impex saiu da Amazônia, pois o mogno e o cedro começou a rarear nas margens do rio e não havia a estrutura de estradas para exploração.

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  5. DR. PARSIFAL,
    OBRIGADO PELAS INFORMAÇÕES ESCLARECEDORAS A RESPEITO DESTE PEDAÇO, UM TANTO ARIDO DE INFORMAÇÕES, DA HISTORIA DO VALE DO TOCANTINS.

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  6. DR. PARSIFAL,

    NA EPOCA DA E F TOCATINS, OS FUNCIONARIOS RECEBIAM OS SALARIOS EM ESPECIE, QUE ERAM ENVOLOPADOS NO ESC. DE BELÉM E O TESOUREIRO TRAZIA OS HOLERITES PELA LANCHA TOCANVIA, EM VIAGEM EXCLUSIVA, EM QUE NÃO TRAZIA PASSAGEIROS, POR QUESTÃO DE SEGURANÇA DO NUMERARIO.ISTO POSTO, PERGUNTO : COMO ERA FEITO O PAGAMENTO DOS FUNCIONARIOS DO ESTADO NA TUCURUI DE ANTIGAMENTE, QUE NÃO TINHA BANCOS ? VINHA UM FUNCIONÁRIO ESTADUAL DE BELEM FAZER O PAGAMENTO OU IA UMA DIRETORA ESCOLAR DAQUI PARA TRAZER A VERBA ?

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  7. Só havia uma escola estadual em Tucuruí, que era o Grupo Escolar Frei Gil de Vila Nova, na Praça Jarbas Passarinho.
    As professoras do "Frei Gil" ficavam meses sem receber, até que algum funcionário do "Tesouro Estadual" trouxesse o pagamento ou a diretora conseguisse ir buscar em Belém.
    E elas nem faziam greve, davam aula com todo o gosto, e conheciam os alunos, um a um, pelo nome, além de saber os nomes dos respectivos pais também, ou seja: fez traquinagem era surra em casa.

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  8. DR. PARSIFAL,

    AUTENTICOS HEROIS DO SABER OS PROFESSORES E PESSOAL DE APOIO DAQUELES TEMPOS.REALMENTE, SO TINHA O GRUPO DA PRAÇA E A ESCOLA DR. ARQUIMEDES P. LIMA DA E . F. TOCANTINS. EU ESTUDEI NO GRUPO DA ESTRADA ATÉ 1964 E DEPOIS FUI PARA O INST N S CONCEIÇÃO, EM 1965. NO GRUPO DO ESTADO, NA PRAÇA, O FISCAL DE ALUNOS ERA O SEU TIO, O SR. XINDÓ. NÃO FAZER O DEVER DE CASA OU NÃO TER BOM COMPORTAMENTO ERA COMPLICADO PORQUE OS PAIS ERAM COMUNICADOS RAPIDAMENTE.ERA SURRA NA CERTA.NO GRUPO DA ESTRADA, O FISCAL DE ALUNOS ERA O SR. PEDRO MERGULHÃO SOBRINHO.O COLEGIO DAS IRMÃES COMEÇOU A FUNCIONAR EM 1965.A 1A EQUIPE ERA FORMADA PELA IRM. BARROS LIMA, IRM. ROSALI, IRM. LUIZA E IRM. TERESINHA. GRANDE CLASSE DE ABNEGADOS EDUCADORES.OBRIGADO PELA INFORMAÇÃO.

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