11 de out de 2009

O feitiço do rio

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Gustav Wertheimer – O beijo da sereia

Como todos os caboclos ribeirinhos, nossas superstições tinham estreita ligação com o rio. Eu era louco para ver a Iara, a mãe d’água, como a chamávamos.

Tantos casos de mãe d’água, moça bonita e encantadora, ter levado jovens rapazes para seu enorme castelo no fundo do rio e eu nada.

Menino sai do rio se não mãe d’água te leva, comigo não funcionava. Eu queria mesmo era que ela me levasse. Passava horas me imaginando no castelo da Iara. Eu queria ser encantado.

Nas minhas fantasias eróticas de criança, não tinha lugar para aquelas atrizes em preto e branco das fotonovelas da revista Sétimo Céu: nos meus delírios libidinosos eu só me via nos braços lânguidos e macios da Iara.

Minha brincadeira preferida era pira embaixo d’água: quem fazia o papel de mãe tinha que mergulhar e pegar no fundo, ou nadar atrás, na superfície.

Moleque é bicho danado: mergulhávamos por entre as galhadas e raízes submersas das árvores, prendíamos a respiração e nos agasalhávamos agarrados às moitas, no fundo do Tocantins.

Certo estou hoje de que escapávamos todos os dias de alguma sucuri preguiçosa, que observava pachorrenta as nossas traquinagens.

Uma vez, ao mergulhar, dei de cara com uma delas. Voltei à tona bem mais rápido do que qualquer mortal possa imaginar e prometi nunca mais mergulhar naquela lugar. O meu nunca mais não durou mais que dois ou três dias.

Certa feita, enquanto brincávamos de pira embaixo d’água, mergulhei mais fundo e rumei ao meio do rio, fugindo para não ser apanhado.

O perseguidor, prudente, desistiu e retornou às margens e à tona. Continuei. Quanto mais fundo eu mergulhava mais vontade dava de prosseguir. Soltei-me dentro do rio, não mais nadava, estava inteiramente entregue ao Tocantins.

A sensação que eu sentia era maravilhosa: é a mãe d’água me encantando, pensei.

A intimidade com o rio aumentava e eu tinha a nítida sensação de estar respirando dentro d’água.

Meus olhos atentos procuravam a Iara que viria me buscar e agasalhar-me em seu castelo encantado.

Finalmente meu sonho seria realizado: eu seria encantado e vez em quando, nas noites de lua cheia, iria aparecer para alguém.

Despertei do êxtase com alguém me puxando pelos cabelos rumo à tona. De repente o fôlego me faltou. O encanto se quebrara.

Todos, assustados, me esperavam à tona. Correu a notícia de que eu ia morrendo afogado. Para mim, todavia, a Iara viera me buscar e fora espantada pela presença de outros.

Vez em quando eu mergulhava e me soltava à esmo para tentar repetir a sensação daquele dia e jamais consegui novamente. Intuí que a mãe d’água houvera se zangado comigo e foi procurar alguém mais para encantar.

Hoje, vez em quando, ainda prefiro acreditar na versão da criança. Uma coisa porém me é certa. Se de fato eu estava prestes a morrer por afogamento, Dorival Caymi tem toda razão: é doce morrer no mar.

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