11 de out de 2009

Verde era meu vale

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Quando eu tinha entre cinco e onze anos de idade, uma das minhas brincadeiras favoritas, junto com os curumins da aldeia Trocará, era pular no rio e mergulhar por baixo das manadas de caititus, para puxar-lhes pelas pernas.

Éramos uns sobreviventes: fazíamos aquilo com iraras e gatos maracajás, cujos dentes afiados se mostravam ameaçadores para o nosso deleite. O perigo para nós era uma diversão.

O vale do Tocantins era o nosso santuário: sobrevivíamos da floresta sem derrubá-la.

Nossas roças, de onde tirávamos parte do sustento alimentar, eram plantadas nas áreas sem cobertura vegetal densa, na beira do rio, que chamávamos de vazantes. As malhadeiras eram estiradas nas margens e os cardumes de peixes que lá ficavam eram as nossas proteínas.

A floresta nos dava os remédios e os mitos necessários a nossa formação enquanto seres amazônidas que não sabíamos que éramos.

Um dia chegou alguém em Tucuruí, que contava com não mais que duas mil e quinhentas almas, dizendo que iriam fazer ali uma grande hidrelétrica.

Ficamos maravilhados com os carros e tratores que começaram a rasgar a floresta abrindo estradas que trariam o progresso.

A cidade começou a crescer assustadoramente e nós nos orgulhávamos disto. Propriedades inteiras, de onde gerações tiraram o seu sustento, foram trocadas por camionetes e nós sequer sabíamos dirigi-las.

Os que chegavam olhavam aquela mata densa, exuberante e intransponível e não sabiam como trabalhar dentro dela: tinham que derrubar aquilo e tocar fogo em tudo para poder plantar algo que seria o pasto do animal que iria substituir as pacas, os tatus, a onça, as cutias, o veado, a anta e os caititus: o gado.

No linguajar dos colonizadores, os nossos bwanas tropicais, éramos uns preguiçosos. Como podíamos ter vivido anos no meio daquele matagal, só tomando açaí, comendo peixe e se afumentando com andiroba, ou seja lá que coisa fedorenta fosse que tivéssemos em uma cabaça?

Meu pai, talvez pela convivência com os Asuriní, era desconfiado. Não trocou a sua propriedade por uma camionete, mas não suportou a pressão dos novos amigos para derrubar a mata e fazer pasto: resolveu ser fazendeiro. Quedou-se à nova onda do progresso.

Havia até incentivo do governo para derrubar a mata. Quem derrubasse tinha direito a adquirir o título de propriedade da terra que ocupava.

Primeiro foram os machados nas mãos de centenas de homens: os gritos dos homens anunciando a queda das castanheiras era misturado com o ruído da própria queda.

As castanheiras, quando ceifadas pelas mãos afiadas do progresso, tentavam, para evitar a queda, se segurar em outras. Acabavam levando-as junto. Assim, com um só machado iam duas castanheiras ao chão: estava inaugurada a produtividade na floresta.

Mas isto era pouco. Chegaram as moto serras: era um barulho ensurdecedor.

As moto  serras ainda não foram o suficiente: os que podiam compravam ou alugavam tratores enormes e amarravam a extremidade de uma corrente em um e a outra extremidade em outro. As correntes eram esticadas e os tratores avançavam levando ao chão o que se metia na frente.

Eu olhava aquilo ensimesmado e maravilhado: adorava o cheiro travoso da seiva verde derramando. Eu sentia o gosto das folhas espremidas pelo arrasto bruto dos troncos, que rasgavam a terra úmida.

Eu era um ignorante: não intuía que aquilo era o sangue da floresta que estava sendo dizimada.

Depois de posta a mata ao chão, tocava-se fogo em tudo para limpar a área para o pasto: eram as invernadas.

Os animais silvestres, assustados com aquela festa, também entraram nela: como alimentos aos desbravadores. Depois, como protagonizado, além de bois no pasto, não mais restou muita coisa. Sumida a mata, sumiu a vida que ela proporcionava.

Nos dias de hoje, ver algo do que outrora foi a fauna daqueles vales é uma visão de rara oportunidade: uma aparição.

Com as fazendas, estabeleceram-se as serrarias, que, eufemisticamente se passaram a chamar de indústrias madeireiras: não há apetite mais voraz por toras, onde quer que elas estejam. Não há floresta intransponível ou obstáculo natural que um madeireiro não possa transpor.

Isto é apenas a constatação de um fato. A saga da ocupação amazônica não cabe em um despretensioso artigo, que é mais um desabafo de uma história vivida.

Faço isto com o intuito de despertar uma reflexão e um debate que nunca chegou e já passou da hora.

A mesma lógica de ocupação continua. Agora com algumas maquiagens e variações semânticas, como manejo ou sustentabilidade: resolveu-se amenizar a maldade trocando-lhe o substantivo.

O fato é que o debate amazônico tem que sair das academias, se é que há algum lá, e ganhar as ruas.

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