11 de out de 2009

O papa-arroz

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O papa-arroz era um destes moleques cujo único objetivo era o ócio.
 
Saía de casa para a escola, mas até lá chegava raramente.
 
Era a ovelha má que o rebanho seguia alegremente. Saíamos pelas matas que se insinuavam pela cidade, a vadiar. Quando batia a fome ele era certeiro com a baladeira.
 
Seu prato preferido era o papa-arroz, um passarinho menor que a rolinha, que ele assava na brasa, daí o seu apelido. Até hoje não sei como o padre o chamou na hora da pia.
 
Preto que luzia. Canela seca e arqueada. Cabelo pixaim. Braços longos e finos que terminavam em dedos compridos e unhas grossas. Rosto aquilino.
 
Dentes brancos e grandes. Olhos miúdos, mas arregalados. Voz esgarçada.
 
Ponha tudo isto dentro de um calção de cáqui. Imagine que o calção sempre vestisse a três dedos abaixo do umbigo: este era o papa-arroz.
 
No inverno, quando as castanheiras derrubavam os ouriços, a safra era transportada em marabaenses: barcos que saltavam as cachoeiras do Rio Tocantins, entre Marabá e Tucuruí.
 
Tucuruí, além de produtor da castanha-do-pará, era entreposto de armazenamento entre Marabá, rio acima e Belém, rio abaixo.
 
Os barcos marabaenses, prenhes de castanha-do-pará, mergulhavam nos rebojos da cachoeira e chegavam a Tucuruí para descarregar nos armazéns.
 
A beira-rio da cidade era um frenesi de barcos e carregadores que, com paneiros de embira às cabeças, iam e vinham dos armazéns aos barcos, equilibrando-se em pranchas estreitas e em escadas inclinadas, escoradas na ribanceira.
 
Ao andar na prancha que ligava o barco às escadas, os passos toscos dos carregadores derrubavam do paneiro, na água, considerável quantidade de castanhas.
 
Saímos da escola direto para a beira do rio, onde o papa-arroz já havia acertado com os gerentes dos armazéns, o resgate das castanhas do fundo do rio.
 
Mergulhávamos com um paneiro na mão e colhíamos as castanhas, que eram levadas até o armazém e colocadas em separado.
 
Ao final do dia, a castanha colhida no fundo do rio era medida na nossa presença. O papa-arroz recebia os cruzeiros e saímos para dividir.
 
Ele ficava com a maior parte, pois era quem fechava o negócio e, quase sempre, sem o gerente do armazém perceber, acrescentava ao nosso monte de castanha colhido embaixo d’água, alguns paneiros a mais do montão ao lado.
 
Certa feita, após a partida de um dos circos que passara por Tucuruí, tive uma idéia brilhante: faria o meu próprio circo.
 
Imaginei toda a minha trajetória de dono de circo: eu seria famoso e respeitado em todas as cidades e teria meus próprios artistas e bailarinas.
 
Chamei o Dinho e o papa-arroz para sócios e, com facões às mãos, fomos tirar caibros e embiras para montarmos as arquibancadas.
 
Conseguimos serrapilheiras velhas e papelões para fechar o circo que, por enquanto, não teria cobertura: isto viria em uma segunda etapa, quando fizéssemos fortuna.
 
As arquibancadas, feitas de caibros finos, mais pareciam poleiros.
 
Eu era o dono do espetáculo, aquele que anunciava as atrações ao respeitável público.
 
Todos queriam os papéis de trapezistas, atores, palhaços e equilibristas. Havia, no entanto, um número para o qual ninguém queria o papel: o homem de fogo.
 
O circo que partira apresentava a atração como sendo um homem imune ao fogo, que mergulhava em um camburão cheio de gasolina e a este era ateado fogo. Ao apagar-se a chama saía o homem de lá ileso.
 
Consegui convencer o papa-arroz a ser o homem de fogo.
 
A falta de gasolina para encher um camburão de duzentos litros evitou uma tragédia.
 
Pensando em como suprir aquilo, acabei por descobrir o truque por trás do número: lembrei-me que, vez por outra, quando meu pai ia abastecer o barco e deixava cair um pouco de gasolina na água, ela não se misturava e ia descendo o rio.
 
Intuí que eu poderia encher o camburão de água e em cima colocaria gasolina.
 
O papa-arroz estaria mergulhado na água e nada sentiria. Quando perdesse o fôlego e boiasse, a gasolina já teria queimado.
 
Só não conseguimos a bailarina. As meninas, destarte minhas promessas de bons salários, não aceitaram o papel, pois as mães lhes passavam a idéia de que as bailarinas eram umas pervertidas.
 
O nosso circo foi armado à beira do Igarapé Santos e às oito horas da noite o poleiro estava cheio e o espetáculo iniciou.
 
Chegou a hora do homem de fogo. O papa-arroz foi anunciado.
 
Todo garboso, no seu inseparável calção cáqui, o papa-arroz apareceu saudando o respeitável público, que a custo continha o riso por sob os aplausos que eu pedia calorosamente.
 
Não atentei para o fato de medir o fôlego do papa-arroz e colocar sobre a água a quantidade proporcional de gasolina.
 
O papa-arroz entrou no camburão e, com a água pelos ombros, mais uma vez saudou o respeitável público.
 
Puxou o fôlego e mergulhou.
 
Derramei a gasolina na superfície da água e joguei o fósforo:
 
- Veja, respeitável público, O homem de fogo!
 
O fôlego do papa-arroz acabou e ele veio à tona quando o fogo ainda não havia apagado: ele mergulhou de novo mas não deu tempo de puxar outro fôlego.
 
Veio à tona de novo, os olhos arregalados. Sentiu o calor. A platéia, em primeiro momento, reagiu às gargalhadas.
 
Percebi a agonia do papa-arroz. Gritei o quandú e o Dinho e entornamos o camburão, de onde o papa-arroz já pulava desesperado.
 
O camburão saiu rolando e bateu na base da arquibancada, que amarrada com embiras não resistiu e veio abaixo.
 
O papa-arroz, imaginando que estava em chamas, mirou o Igarapé Santos e arremessou-se contra ele, furando a arquibancada e derrubando quem houvera resistido ileso ao choque do camburão.
 
Assim se encerrou, no dia da estréia, a minha curta carreira de dono de circo.
 
A última vez que eu vi o papa-arroz foi quando ele veio se despedir: sua mãe iria para a capital, trabalhar em uma casa de família e o levaria com ela.
 
O São Jorge, um barco que fazia linha no baixo Tocantins, levou um papa-arroz que acenava risonho.
 
Mais de trinta anos se passaram desde então. Não sei o que a vida fez ao papa-arroz e a sua mãe. Não sei o que fizeram da vida.
 
Como todo passado que se preze, o papa-arroz virou uma lembrança a mais da minha infância feliz.

8 comentários:

  1. Bons tempos aqueles. Tempos do Cine Tucurui (na sede do Tucurui Sport Clube), das Vesperais do Eldorado (Na Esquina da Praça).O Prefixo musical do Cine Tucurui,do Seu Manoel Seco,era a musica SAIA VERMELHA de Poly e seu conjunto.Nos vesperais de Domingo,do Bar Eldorado,tocavam muito os merengues de Luiz Kalaff e seu ritmo dominicano, alem dos boleros de Bienvenido Granda,alem do mambo SIBONEY, tocado por Poly e seu conjunto.
    Decididamente, o Tucurui de antigamente ficará para sempre em nossas lembranças

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  2. Olá amigo,

    Você me fez ir ouvir Poly e Luiz Kalaff.

    Éramos felizes e sabiamos.

    Um abraço.

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  3. Complementando o meu comentario de ontem, me lembro do duble de tabeliaõ e dono de bar Milton Nogueira de Brito, o Mitó, e sua aparelhagem sonora A VOZ DO ROSARIO, que tinha seus altos falantes instalados na beira do Rio, perto do antigo mercado municipal.Me lembro da campanha politica de 1964 em que o comite do candidato a prefeito Diquinho ficava no alto da colina (assim denominava Raimundo Maia Galvão Filho), o Galvão, que era o locutor oficial da campanha do canditato.Gostava de ouvir-lo porque a musica de fundo era do grande John Philip Souza, o genio das marchas. Até hoje ouço as musicas de SOUZA, como : SEMPER FIDELIS, WASHINGTON POST, EL CAPITAIN, THE STRIPES AND THE STARS FOREVER, entre outras.Consegui também, depois de exaustiva pesquisa musical, reunir, em gravações originais, 25 musicas orquestrada que eram tocadas no CINE TUCURUI, gravaçoes de POLY, ALTAMIRO CARRILHO (JURA), NOCA DO ACORDEON (BAIÃO DA SAUDADE ), ALBERT KONRAD (ZAMBESI), BERT KAEMPFERT(AFRIKAN BEAT) e outras raridades.Como morava na Lauro Sodré, quase esquina com a PRAÇA, além de ouvir de casa os anuncios de cinema, também não perdia um filme na sede do Tucurui, o INOLVIDAVEL CINE TUCURUI.

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  4. Olá,

    Você foi buscar quem realmente eu não lembrava: o "Seu Mitó", que era, na verdade, o dono do atual cartório da "Tia Maria", o Cartório Silva Soares". O Mitó morava ao lado de onde hoje é o prédio que mora a "Tia Mira", viúva do finado Adrião. Uma casa à direita eu nasci.
    O Galvão era um dos oradores oficiais dos comícios do "Seu Diquinho".
    A seleção musical merece um álbum com o nome "Tucuruí dos velhos tempos".
    Você me deu uma idéia de fazer um texto com estes personagens. Se lembrar de mais algum, por favor, escreva.
    Dê uma lida no "Carregadores de água", onde eu lembro o gilete, o puro leite e o cara de onça.

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  5. Doutor Parsifal, breve lhe envio mais comentarios de locais e figuras pitorescas da Tucurui dos anos 60. Figuras como o impagavel Duruteo.Seu Durutureo era um vigia da Estrada de Ferro que, quando tomava umas e outras, virava um eloquente orador, sempre enfocando assuntos de politica, de Ferroviario e Paraiso ou então de assuntos da Estrada de Ferro, mas era um orador respeitoso ele não baixava o nivel com palavrões. Tinhamos também o vendedor de pirulitos que tinha o apelido de DELEGADO, que quando nos chamavamos de "DELEGADO, TU MATOU O BARATA" ele largava seu tabuleiro e jogava pedras. Era um correria desenfreada para escapar de suas pedradas.
    Excelente sua ideia de valorizarmos essas musicas orquestradas (todas são orquestradas).Me informe como faço para lhe enviar do CD domestico que fiz com as musicas CINE TUCURUI.
    Infelizmente, da Tucurui de até os anos 70 pouca coisa,(quase nada) restou.Até a Sede do Tucurui Sport Club não existe mais.A sede do Ferroviario virou criadouro de mosquitos da DENGUE. O predio da Antiga Estação da EFT teve sua linha arquitetonica totalmente modificada (uma iniciativa idiota), hoje o que se ve é um predio sem identidade.A rigor, o que ainda temos daquela epoca é o Predio do Escritorio da EFT, algumas construções da antiga rua do comércio na Magalhões, onde tinham os comercio do Juarez Aguiar, do Janito Boi, do João Garcia, do Pisca-Pisca, do Seu Tavares, do Chico Seco, do seu Vivi, das farmacias do seu Oscar e do seu Contente, do bar do seu Leandro Miranda, etc...
    Finalizando, o seu Mitó era meu padrinho e morava em frente de casa na Lauro Sodré. Ele me dava uns discos que eu tocava numa improvisada eletrola feita de buriti em que era colocada um filete de gilette para servir de agulha e toca discos girado com a mão.Ele faleceu subitamente numa noite do ano de 1965.Grande figura, sempre alegre. Foi velado em seu cartorio da Beira do Rio.Ele também gostava de, no carnaval, sair num bloco de sujos junto com o seu Antonio Gomes (da oficina da EFT)e de outros foliões.
    Li sua cronica sobre os enchedores de agua.Ficou otima.
    Breve lhe mando mais noticias do que lembro daquela epoca, pois nasci em Tucurui em 1955 e desde 1984 voltei a morar e a Trabalhar aqui em Tucurui.Daqui não pretendo sair mais.
    PS : Tenho também as musicas do SOUZA, o americano genio das marchas militares (as musicas que o Galvão usava na campanha de 1964).
    Até breve.

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  6. Olá amigo,

    Eu levei uma lambada do Delegado, na praça Jarbas Passarinho, por causa da brincadeira: eu gritei e corri, mas ele foi mais ligeiro e mandou um cinto de couro que tinha na mão, na minha costa.

    o Seu Vivi, todos os dias, dava uma surra na esposa, a Dona Donina. Morávamos, na Praça Jarbas Passarinho e ele na Magalhães Barata: o quintal deles fazia cerca com o lado de casa.

    O Juarez Aguiar está com a cabeça toda branca e mora em Vila do Carmo, em Cametá: encontrei com ele na campanha passada.

    Gostaria muito do CD com a coletânea. As músicas, como são antigas, se já estiverem em domínio público, podem ser gravadas para distribuição e seria possível, talvez, o CD "Lembranças do Tucuruí que passou"

    No canto superior direito do blog há um link de e-mail. Por favor me passe o seu contato em Tucuruí, e quando eu for aí lhe procuro.

    Abraços.

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  7. valeu parsifal vc é o máximo.

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    1. Obrigado amigo. Na verdade, o papa-arroz é que era o máximo.

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