15 de out de 2009

Papagaios e sonhos

pipas

No pico do verão, o firmamento de Tucuruí, embaixo deste sol que nos protege, pintava-se de coloridas pipas a bailar faceiras pelo céu da minha infância.

Primeiro eu ia tirar as talas. As preferidas eram as do buriti que vinha da maré em pequenos barcos motorizados, cujo motor fazia um barulho peculiar - paco-paco - que lhes dava o gênero. A maré eram as cidades do baixo Tocantins.

Cortávamos as talas no tamanho respectivo, conforme fossemos fabricar papagaios, cangulas, rabiolas ou curicas: o papagaio era o maior e geralmente um hexágono, as cangulas um quadrado, as rabiolas eram cangulas com rabos grandes e as curicas eram os papagaios pequenos, que não ganhavam muita altura.

Amarrávamos as talas com linha fina e íamos fazer a cola de goma de tapioca, que serviria para colar o papel nas talas. Finalmente vinha o rabo: uma linha comprida com tiras de pano fino, de todas as cores.

Garrafas de vidro eram quebradas e embrulhados os cacos em um pano grosso. Socávamos este embrulho com um porrete até que o vidro fosse pó. Misturávamos o pó de vidro na goma de tapioca: era o “ceró”.

Passávamos o ceró na linha que serviria para empinar e o nosso papagaio estava pronto para singrar o céu.

O segredo de um bom papagaio era saber “dar a barriga”, operação que consistia em encostá-lo à barriga e entortar as talas à forma do corpo para que ficassem convexas e assim trabalhassem melhor o vento, e este não rasgasse o papel.

Eu era um expert em barrigas, constantemente procurado para a operação em papagaios alheios.

Se a tala estivesse muito seca, a operação poderia ser mal sucedida e o papagaio se quebrava na torção, portanto, eu cuidava de avisar, todo solene, antes de aceitar a empreitada.

- Se quebrar a tala não é de minha responsabilidade!

Eu adorava falar esta frase, pois sabia que dar barriga em um papagaio era como desarmar uma bomba: poderia explodir a qualquer instante.

De carretel na mão e com alguns metros de linha dada, corríamos olhando o papagaio decolar.

Era uma sensação de vitória e poder: dar linha ao vento e deixar que ele levasse o papagaio, bailando, para o alto.

Quando a linha se esgotava era hora dos malabarismos aéreos: a bicuda consistia em virar o bico do papagaio para baixo e fazê-lo mergulhar no vazio como uma gaivota em busca do peixe no rio; descair consistia em dar linha ao papagaio, mais rápido que este poderia subir com o vento, e isto o fazia perder sustentação e cair como se estivesse “chinando”. Chinar era cair de verdade.

As descaídas eram para enganar a molecada que ficava de cara pra cima esperando uma linha arrebentar para aparar a queda e ficar com o papagaio.

Estas manobras, além de simples bailados, também eram usadas na hora da briga entre dois papagaios no ar, quando um queria cortar o outro com a linha.

Na hora que um papagaio começava a chinar a molecada começava a correr de um lado para outro: eles nunca sabiam se era uma chinada ou uma descaída, por isto tinham que correr sempre.

Um papagaio chinando em um fim de tarde é um quadro cheio de melancolia: é como um anjo caindo. Aquela modinha do Nilson Chaves e Vital Lima, “Flor do destino”, uma das belas do cancioneiro paraense, traduziu bem o triste espetáculo: “teu amor é um papagaio que china dentro do silêncio da tarde cinzenta.”.

Quando o sol começava a dar sinais de cansaço e o manto da noite era anunciado pelo crepúsculo, era a hora da guerra.

Manobrávamos a linha de forma que os papagaios se aproximassem um do outro, chamando para a briga. Se o papagaio próximo tentasse correr, corríamos atrás.

Geralmente não sabíamos quem estava no chão, na ponta da outra linha: não sabíamos com quem era a contenda.

Linhas trançadas no ar, começava a serra: o pó de vidro da linha funcionava como uma lixa, que em movimentos de vai e vem que dávamos com a mão cá embaixo, ia desgastando-a até torar.

O papagaio que tinha a linha cortada tateava o assoalho que a mesma lhe dava. A linha tentava, desesperadamente, segurar-se à outra ponta que caía. O vento do fim de tarde soprava o papagaio que desmaiava, bêbado, no vazio.

Na queda, o rabo do papagaio é uma poesia à parte: ele se levanta trôpego, querendo se segurar no firmamento. Não encontrando guarida cai de novo, e nesta queda, embola-se ao corpo da pipa, na esperança vã de sustentar-se.

Essa agonia era acompanhada de um frenesi louco cá em terra:

- Chinou!

- Tá chinando!

A estes gritos de alerta a molecada se engalfinhava em expectativa, varas ao alto, cada uma em desespero maior para ficar mais em cima e aparar o objeto do desejo.

O Sol ficava mais um pouco, teimando em ir, mas era parceiro de fado do papagaio: ia chinando também, no horizonte saudoso dos vales do Tocantins.

Nossa brincadeira de verão só cessava com as primeiras chuvas que nos dissolviam o brinquedo, como o Sol dissolveu as asas de Ícaro.

Relembro isto hoje como se fosse um terno sonho do qual há muito acordei e, ensimesmado, pergunto-me o que, afinal, estamos legando aos nossos filhos.

Constato, com certa amargura, que temos legado mais fatos e menos sonhos. Isto não tem a devida graça: sonhar é preciso.

Disse, certa vez, Somerset Maugham, que a realidade seria insuportável se não fossem os sonhos.

Sonhemos nós…

Um comentário:

  1. Amigo Parsifal! Eu lhe parabenizo por lembrar das diversões de nosso passado não muito distante, eu sempre quis escrever sobre nossa bricadeiras de Pião, Peteca (bola de Gude). Fura-chão, de turma, de roda, cair no poço, bole bole, bola, queimada, carrinho de lata de sardinhas e outras, eu gostari de escrever mais o meu problema é publicá-los tenho dois livros prontos para serem publicados: Um é sobre o lago e o outro é sobre a Cabanagem.
    Continuem mostrando como foi a nossa infância.

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