11 de out de 2009

A praça

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Eu ia e vinha do Grupo Escolar Arquimedes Pereira Lima equilibrando-me nos trilhos da Estrada de Ferro Tocantins.

Como eu, vinham todos os outros colegas de escola: apostávamos quem conseguia se equilibrar por mais tempo, sem cair nos dormentes.

Os dormentes era outra brincadeira divertida: pulávamos, com os dois pés, de um para outro, desde a escola até o cruzamento com a Lauro Sodré, quando eu tinha que descer para tomar o rumo de casa.

Eu morava na praça. A praça não tinha um nome específico. Era simplesmente a praça.

Ficava em frente à igreja de São José, a matriz, onde se reuniam, todos os dias, as senhoras do Sagrado Coração de Jesus, com as suas roupas divinamente brancas e engomadas: eu adorava ver aquelas senhoras, com a fita vermelha da Ordem do Coração de Jesus, atravessando, quase em marcha, a praça, rumo à Igreja.

Aquilo para mim era uma imagem com algo de divino.

O chão era descalço. Não tinha asfalto. Pequenos arbustos cresciam na praça, que eram cortados pelos caminhos que se faziam pelos pés dos que passavam.

No meio dos arbustos costumavam crescer pés de bem-me-quer, que também chamávamos de margaridas. As margaridas eram constantemente arrancadas por mim, para que me dissessem se a minha mais nova paixão me correspondia ou não. Eu me apaixonava de três em três dias, mas elas nunca souberam disto: só eu e as margaridas.

Na praça aconteciam todos os grandes momentos de Tucuruí. Lá cabiam todos os quase três mil habitantes da cidade, uma das mais populosas do baixo Tocantins da minha infância.

Conhecíamos todos pelo nome. Éramos solidários: bastava alguém ter dor de cabeça na Matinha que alguém da Jaqueira, do outro lado da cidade, já procurava um chá qualquer para a cura do mal.

Os velórios eram um verdadeiro convescote de solidariedade. Velava-se o morto, a peso de café com bolachas e torradas, por, no mínimo, vinte e quatro horas. Hoje em dias as pessoas estão muito apressadas para enterrar os seus mortos. Como diz o bolero, tudo muda o tempo todo no mundo.

No 07 de setembro, na praça, em um palanque de madeira montado para as solenidades, eu costumava declamar poesias ou fazer discursos, representando D. Pedro I.

O discurso que eu mais gostava de fazer era o do Dia do Fico. Eu me sentia o próprio D. Pedro I ficando. Adorava as palmas e adorava ainda mais me curvar, até quase encostar a cabeça nos joelhos, agradecendo à audiência. A regra era fazer esta reverência ao público por três vezes. Mais do que isto ninguém mais batia palmas e se curvar sem palmas não tinha graça alguma.

Lá na praça também se apresentava, nas festas religiosas, a Orquestra de Tucuruí. A nossa orquestra era composta de um saxofone, um trompete, uma bateria com um prato e um acordeom. O puro leite, um daqueles eternos ébrios que toda cidade do interior se orgulhava de ter, dançava enquanto a orquestra se apresentava. A molecada, à guisa de imitá-lo, dançava com ele.

Ao lado da Igreja de São José, para compor a paisagem pitoresca, havia uma enorme e frondosa mangueira. Aos meus olhos de criança ela era enorme mesmo. Eu imaginava que se subisse ao último galho dela, eu tocaria as nuvens.

Eu morria de vontade de tocar as nuvens. Subia na mangueira, e a cada galho alçado via as nuvens mais de perto. Quando eu chegava no galho mais alto, que mal me agüentava o corpo magro de moleque, eu estendia a mão para o nada, mas não tocava as nuvens.

Descia frustrado. Às vezes levava uma pedra na mão, para jogar ao alto e ver se a pedra tocava as nuvens: nada.

Em casa, vez em quando, eu perguntava ao meu pai se aquela mangueira ainda cresceria mais. Ele respondia que sim, que as mangueiras cresciam até tocar nas nuvens.

Eu perguntava quanto tempo isto levava para acontecer. Ele respondia que quando eu estivesse com uns 15 anos, a mangueira já estaria chegando nas nuvens.

Eu tinha uns seis anos então, e não conseguia imaginar como seria quando eu chegasse aos quinze. Mas eu achava que aos quinze eu ainda poderia subir na mangueira e tocar as nuvens: aquilo me confortava e me aquietava o coração de moleque afoito.

Quando cheguei aos quinze a mangueira não mais existia. O progresso a derrubou. Havia chegado três carros na cidade e ela atrapalhava o trânsito.

Os três carros também foram a causa da derrubada de um açaizeiro, no qual eu subia quando chovia e ventava forte, para ficar balançando, um pé de fruta pão, cujo fruto eu adorava tomar com café, uma promumbuqueira, cujo pequeno fruto usávamos como cola, e uma touceira de imbaúbas que a molecada não deixava vingar jamais, pois sempre que alguma se atrevia a levantar nós a elegíamos como algum monstro inimigo e lhe descíamos o facão.

A praça, não mais que de repente, ficou nua. A inocência, não raro, tem ares de idiotice: era divertido ver as mangueiras tombando ao machado. O nosso maior prazer era poder catar as mangas no chão, depois do tombo da árvore que lhes seguravam no alto.

Eu não consegui tocar as nuvens dos galhos da mangueira. Ela veio ao chão antes.

Do outro lado da matriz ficava o único grupo escolar estadual da cidade: o Grupo Escolar Frei Gil de Vila Nova.

Um pedaço de trilho, amarrado a um arame, pendurado na beirada do telhado da escola era pontualmente golpeado pelo tio xindó, chamando a molecada para estudar, mandado-as para o recreio, chamando-as de volta, e, finalmente, devolvendo-as para casa.

O tio xindó, após os sinos de chamada, verificava, de sala em sala, se estava todo mundo. Se alguém estava faltando o pai era comunicado imediatamente. Não tínhamos como escapar do suplício das salas de aula: uma visita do tio xindó era surra na certa.

O melhor da aula era os trinta minutos de recreio. Não raro tirávamos a roupa e pulávamos no Igarapé Santos, logo atrás da escola. Quando batia o sino, chamando-nos de volta, a correria era para nos enxugarmos com a roupa dos outros e correr para pegar a nossa, para que ninguém se enxugasse.

A minha diversão favorita era pegar a roupa de alguém e esconder. Levei umas tantas surras por causa disto. Mas o prazer de ver o desespero do moleque atrás da roupa sempre me fazia esquecer a surra que eu levaria: toda criança, no fundo, é um sádico.

Na praça da matriz tinha de tudo: a farmácia do seu Oscar, seu Afonso, o dentista – ele usava uma roda com pedal para obturar dentes, mas, Isto é uma história à parte – a padaria do Seu Manoel Pontes, que também era uma mercearia, seu Esmelindo, o relojoeiro, dois bares e o Armazém do meu pai.

A nossa casa era em um dos lados daquele mundo. Claro: a praça era o nosso mundo. Ali as coisas aconteciam na cidade.

Lá também morava, em uma das esquinas, onde hoje é a Câmara Municipal, um intrépido ferreiro que tinha o rosto e os braços vermelhos, queimados sempre pela fornalha onde assava o ferro para moldar na bigorna, a fim de fazer as peças das locomotivas da Estrada de Ferro Tocantins: o meu avô materno Samuel, conhecido por tio samuca.

No quintal daquele imenso casarão se fincou uma das minhas árvores preferidas – eu vivia trepado em árvores – um pé de tamarindo. Quando a tamarineira se carregava de frutos eu subia ali e ficava pulando de galho em galho, como um macaco, e só descia quando os dentes não mais agüentavam de sensíveis de tanto comer tamarindo.

Na praça também tinha o pau de sebo. Nunca cheguei ao alto do pau de sebo. Mas o que eu gostava mesmo era de subir até onde pudesse e escorregar de lá.

Quebrei potes, também – feito cabra-cega - na praça, mas dos potes que quebrei só caíram sapos.

Dancei quadrilha lá. Lá eu levantava a lona dos circos que eram armados, para entrar sem pagar, afinal, que gosto tem para um moleque entrar em um circo pagando?

Amarrava moitas de capins, umas às outras, nos caminhos da praça, para as pessoas, ao passarem, tropeçarem nas moitas amarradas e caírem.

Amarrava linhas à peconhas de cebola, para, já na penumbra da noite, escondido, puxar quando alguém passasse: a pessoa pensava que era uma cobra e pulava apavorada.

Eu me contorcia a gargalhar, sem fazer barulho.

Na praça se empinavam papagaios. Na praça chinavam os papagaios. E nada é mais belo e melancólico do que ver um papagaio chinando em um fim de tarde.

Fui imensamente feliz naquela praça, mas, ela não existe mais. No mesmo lugar fizeram outra e lhe deram um nome: Jarbas Passarinho. Ela ganhou um nome mas perdeu a alma. Faleceu antes de envelhecer. Ela partiu e eu fiquei, envelhecendo com as minhas lembranças. Eu a enterrei no cemitério das minhas reminiscências.

A praça, vez em quando, baila solta nos arroubos do meu coração e escorre, tímida e sorrateira dos meus olhos, em forma de lágrimas.

Tenho uma frustração: como o maestro Romão, do conto do Machado de Assis, que tinha uma belíssima sinfonia na cabeça, mas, que ao sentar ao piano para compor não conseguia escrevê-la jamais, eu também tenho a mais linda poesia do mundo na cabeça, para fazer à praça, todavia, sempre que sento para escrever os versos, não consigo rascunhar uma palavra. O coração aperta e dói. Dá-me taquicardia.

Acho que um dia morro de infarto ao tentar uma poesia à praça.

Não adianta você querer ver a praça agora: você irá ver outra coisa, outro tempo, outro lugar. A praça, como eu já lhe disse, faleceu, arrebatou-se.

Às vezes tenho cá as minhas dúvidas se ela de fato existiu, ou se aquele era um mundo que eu mesmo inventei e ninguém jamais viu.

Mas, como Neruda, confesso que vivi.

4 comentários:

  1. TUCURUI, NOITE DE 24 DE DEZEMBRO DE 1965.TINHA DEZ ANOS.A NOITE FUI ASSISTIR NO CINE TUCURUI O FAROESTE "MATAR OU MORRER" (TITULO UM POUCO IMPRÓPRIO PARA A EPOCA NATALINA), ESTRELADO POR GARY COOPER E GRACE KELLY.O FILME NARRA O DRAMA DE UM XERIFE QUE, NO DIA DE SEU CASAMENTO, RECEBE A NOTICIA SOBRE UM PERIGOSO MALFEITOR, QUE CHEGARÁ NA CIDADE NO TREM DO MEIO-DIA, PARA UM ACERTO DE CONTAS COM COM ELE.O CINEMA ESTAVA LOTADO. ME LEMBRO COMO O SR MANOEL SECO ANUNCIAVA A CHAMADA NA SUA APARELHAGEM : "NOTICIA DE CINEMA. NÃO PERCA HOJE AS 19:30, NO CINE TUCURUI A EXIBIÇÃO DO SENSACIONAL DO FILME MATAR OU MORRER.MATAR OU MORRER :UM FAROESTE SANGRENTO". O SEU MANOEL ERA UMA DAS GRANDES FIGURAS FOLCLORICAS DAQUELA EPOCA.DEPOIS DO FILME FUI A IGREJA DE SÃO JOSÉ, ONDE O PE. HENRIQUE ESTAVA FAZENDO UMA CELEBRAÇÃO ALUSIVA AO NATAL.NA VOLTA PARA CASA,BOLO GUARASUCO E GRAPETTI, ESTREANDO A GELADEIRA A QUEROSENE, QUE MEU PAI TINHA COMPRADO EM BELEM,E QUE VEIO PELO BARCO CORAÇÃO DE JESUS,DO MESTRE SANDÚ.A ENERGIA ELETRICA IA ATÉ AS 10:00 DA NOITE, GERADA PELA USINA DA E.F. TOCANTINS. RETRATOS DE UMA TUCURUI CADA VEZ MAIS DISTANTE NO TEMPO.

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  2. Na realidade, o filme "Matar ou Morrer", nem era tão sangrento como anunciava o saudoso Manoel Seco.Para um western, tinha poucas mas boas cenas de tiroteio.Outro filme exibido pelo Cine Tucurui, também em dezembro de 1965, foi "A Encruzilha dos Facinoras ",mais um filme de faroeste, estrelado por Fess Parker.O 1º Cine Tucurui, que funcionava na sede do Tucurui Esporte Clube, marcou época.Teve sua fase aurea, pródiga de bons filmes, entre 1962 a 1970, sendo o porteiro o seu Britinho, que também era marceneiro da E.F. Tocantins.Na bilheteria trabalhava a srta Rex.Quando o projetor dava algum defeito, era chamado, providencialmente, o seu Onésimo Borges para conserta-lo.A professora Oneida Borrajo Zumero, era frequentadora assidua das sessões.Tinha um poltrona de vime especialmente reserva para ela. A música que antecedia as noticias de cinema, no anúncio da aparelhagem, era "Saia Vermelha" de Poly e seu conjunto,assim como a canção que tocava imediatamente antes da sessão começar era "Barril de chope ", com Altamiro Carrilho e sua bandinha.No intervalo, na troca dos rolos do filme, tocava a musica "That Happy Feeling" com a orquestra de Albert Konrad (Discos CBS), além de "Afrikan Beat" da orquestra de Bert Kaempfert. Convenhamos, o seu Manoel Seco tinha bom gosto musical.Também, naquela época, musica de qualidade era uma constante, bem diferente das mediocridades musicais predominantes hoje.

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  3. Lendo tudo isso de voces escrevem me leva a grandes e eternas lembraças de Tcucurui quando era crainça, meu pai trabalhou na querida Estrada de Ferro Tocnantis.Lembro do Persival como coleginha de classe das primeiras series

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  4. 6 de junho de 2011

    Lendo tudo isso que voces escrevem me traz doce e eternas lembranças da minha infancia em tucurui, inesqueciveis,meu pai trabalhou na querida Estrada de Ferro

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