11 de out de 2009

Durico

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Jagunço – Marcelus Gaio

Durval de Souza, o durico, mal sabia ler e assinar o nome, mas era inteligente.

Nunca vi ninguém com a presença de espírito dele: para tudo ele tinha uma resposta na ponta da língua e montava as mais absurdas teses sobre as coisas da vida com um silogismo tão bizarro quanto indestrutível.

Não adiantava contra argumentar com o durico, ou, de repente, você estaria correndo o perigo de estar querendo explicar porque a sombra não se molha ou sairia convencido de que guardar um pedaço de carvão por muito tempo irá transformá-lo em diamante.

O durico queixava-se de nunca ter sido nada na vida: nem juiz de pelada. Pior que isto, dizia ele, não sabia nem jogar a pelada. Nisto ele se parecia comigo: a única coisa que me atrapalhava em uma pelada, quando eu ousava jogar, era a própria bola.

Veio do sertão pernambucano, onde, como disse João Cabral de Melo Neto, se morre de emboscada antes do 20 e de fome antes dos 30. Resolveu correr terra e chegou no Pará pelos idos de 1960.

Gabava-se, o durico era cheios de gabolices, de já ter matado mais de 20 e que matou um Coronel valente e de muitas posses e por isto fugiu para o Pará.

Uma vez no Pará, resolveu sair da vida de jagunço, porque, segundo ele, aqui os jagunços não são gente de bem e ele estava acostumado a tratar com gente de bem.

Cabelos secos e fogoió. Baixo, não mais que 1.60m. Magro. Barriga saliente. Mãos e pés maiores do que deveriam ser. O queixo ele não tinha, como Noel Rosa. Pescoço comprido e olhos miúdos arregalados. Pernas tortas de cowboy. Ponha isto em uma calça de morim apertada e uma camisa de algodão branco, encardida, e aí está o de cujus: o durico já morreu, para o meu pesar.

Um dia, quando candidato a prefeito de Tucuruí pela primeira vez, eu almoçava em casa quando me avisaram que um tal durico insistia em me falar.

Mandei entrar. Vi a figura peculiar. Convidei a sentar e mandei servir-lhe um prato.

- Pois não, meu amigo?

O durico, em um sotaque nordestino carregado:

- Doutor, o senhor não me conhece mas eu nunca faltei em um comício seu e acho suas palavras bonitas. O senhor é um homem de bem e não merece morrer. Sua vida já foi comprada. Se o senhor quiser mato o cabra que vai lhe fazer e não custa nada. Sou seu criado.

Custei a convencer o durico a não fazer o que queria e a me entregar o fio da meada, para chegar ao mandante da suposta encomenda: na política do interior há muitas ameaças de morte em forma de blefe, mas, por via das dúvidas, é sempre bom averiguar.

O desenrolar do aviso do durico é outra história, mas, desde então o durico ficou sendo, na cabeça dele, o meu guarda costas, e, ao meu contentamento, o meu contador de causos preferido: quando ele se empolgava, depois de uns goles da maldita, virava até mesmo membro do bando de Lampião.

Ele tinha uma pequena venda que era minha parada obrigatória em final de tarde, para tomar café com pão caseiro, feito pela sua esposa, Dona Esmerina.

Em uma cadeira de embalo, que ele elegeu como meu trono, eu me divertia serenamente com a sua voz fina a contar as suas quixotescas aventuras. Não sei o que tinha ali de verdade, mas ele vivia mesmo aqueles momentos.

Quando se anunciaram eleições para diretores de escolas, ele queria se candidatar para o cargo de Diretor da Escola Estadual Ana Pontes. Foi pedir o meu apoio para a empreitada. A sua plataforma era por ordem naquela bagunça da gota serena.

Eu levei um bom tempo tentando explicar-lhe que ele não podia ser candidato: ele não se conformava com o fato de que para ser prefeito ou vereador qualquer um podia, e para ser um diretor de escola tinha tanta exigência.

Fui salvo pelo fato de não ter prosperado a lei que obrigaria as ditas eleições.

No enterro do durico fui eu e mais umas dez pessoas. Não sei o porquê, mas, quando o caixão desceu à cova, lembrei-me daquele trecho do Chico Buarque, do Funeral de um lavrador: “esta terra em que estás em palmos medida é a conta menor que tiraste em vida”. O durico sequer era um lavrador.

4 comentários:

  1. DR PARSIFAL,
    VOCE PODERIA INFORMAR ONDE CONSIGO COMPRAR UM EXEMPLAR DO RARO LIVRO "A ESTRADA E O RIO", DE VIRGINIO SANTA ROSA?. AS VEZES QUE VIAJO AQUI DE TUCURUI PARA BELÉM, PROCURO, MAS EM VÃO. AGRADEÇO PELA INFORMAÇAO. MEU PAI TINHA UM EXEMPLAR, MAS O LIVRO MOLHOU NA ENCHENTE DE 1980, DURANTE A MUDANÇA QUE FIZEMOS DA PARTE BAIXA DA CIDADE PARA O BAIRRO DA JAQUEIRA.

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  2. Infelizmente não há mais o exemplar à venda e os poucos que o tem não abrem mão dele.
    Em eu conseguindo um exemplar, tentarei negociar com a família de Virginio para coloca-lo on line, em formato PDF.

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  3. Dr. Parsifal,

    Deste livro, lembro-me que foi publicado pelas edições O CRUZEIRO. Lembro também, vagamente, de alguns dos personagens do livro : O Médico Dr. Feijó, Célia, Pedro Vigia, Zé Reis, mestre João, o da oficina, que também promovia sessões de pajelança. Do engenheiro chefe, que levou o prologamento dos trilhos do km 82 até Jatobal, não lembro o nome, pois li o livro uma unica vez em 1972.
    Agradeço pela atenção.

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  4. Obrigado,

    Vou tentar conseguir o livro. Meu avô falava sobre o Pedro Vigia, que ficou guardando o patrimônio da EFT entre os períodos de desativamento da obra. Ele não sabia ler e o pessoal fazia bilhetes e lhe entregavam, dizendo que era do diretor para que ele entregasse materiais: ele olhava o bilhete fingindo que lia e entregava o que pediam.

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