15 de out de 2009

Quando havia castanheiras

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Moleque de beira de rio, nasci nadando. Quando aprendi a mergulhar, meti na cabeça que eu tinha o maior fôlego dentre os caboclos do largo remanso que o Tocantins fazia na Ponta Grossa, uma enseada Tucuruí abaixo, onde raramente ousávamos tomar banho: ali era o repouso da cobra grande.

Mesmo morrendo de medo, sempre que algum atentado investia que eu não mergulharia no poço da boiúna, eu saltava rio adentro: o medo de passar por covarde era maior que o desespero que me invadia quando eu imaginava que a fera me enroscaria no fundo.

Eu também me gabava de subir em qualquer árvore. Achar que eu poderia subir em tudo que tivesse galhos me custou, certa feita, um dos meus mais caros patrimônios de verão: um papagaio de talas de paxiba, que eu fizera com esmero para empinar na virada do geral.

Eu apostei o papagaio, com o qual eu já houvera vencido uns três cortes sem chinar: se eu não conseguisse subir em uma castanheira eu o entregaria ao fogoió.

A castanheira tem um caule longo. Os galhos se postam mais altos que a mais alta das mangueiras. As castanheiras estão entre as árvores mais altas da floresta.

Eu ousei. Ao olhar para cima esfriei. Mas o desafio da molecada em uníssono não me deixou recuar.

Entre o caule rugoso da castanheira que me olhava impávida, o olhar maldoso da molecada, e o papagaio que eu ameaçava perder, não vi como sair da arapuca em que me metera: eu não tinha coragem para prosseguir e nem meios para recuar.

Abracei-me ao caule e fui subindo sem ter onde me segurar a não ser na pressão do meu peito contra o tronco, pois meus braços não conseguiam enlaçá-lo.

As rugosidades do tronco começaram a me esfolar o peito. Senti dor e vontade de chorar ao olhar para baixo e me sentir inseguro.

Olhei para cima, em busca dos galhos: eles estavam distantes ainda.

Atraquei-me com força ao tronco e fechei os olhos. Sentia o sangue, misturado ao suor, escorrer entre o meu peito e o tronco: em eu apertando mais meu peito à árvore, as rugas amoladas do tronco me esfolavam o peito; seu eu afrouxasse o abraço, cairia.

Eu não mais tinha coragem para continuar, mas não queria passar pela covardia de descer. Subi mais um pouco: a força começou a faltar-me aos braços.

Travei os dentes, emprestei as últimas forças ao braço e, atracado à castanheira, meu corpo todo rezou a oração de São Jorge, que meu pai me ensinara para sair de apuros.

Não mais que de repente algo me deu forças; não para subir rumo à vitória e sim para descer rumo ao fracasso.

Fui descendo devagar, não querendo chegar ao chão para enfrentar a troça. Ao tocar o chão levantei a cabeça e, com uma voz solene disse ao fogoió: passa em casa e pega o papagaio.

Não sei o porquê: ninguém me caçoou. Pode ter sido em respeito ao meu peito, todo esfolado, onde se misturavam sangue e pedaços de cascas de castanheira, ou, quem sabe, admirados de quão alto eu fui e de como eu consegui descer.

Depois daquele dia, sempre que vejo uma castanheira, sinto um misto de respeito, admiração e gratidão: a árvore respeitou-me a ousadia, mas ensinou-me, idem, a respeitar limites.

Ainda sinto certa vontade de subir em uma delas. Mas, já a covardia, em forma de prudência, não me deixa sequer ousar um abraço.

Ficou uma lição que tenho até hoje, quase 40 anos depois: tanto quanto a coragem de subir, vale a humildade de saber descer.

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